Foi Nietzsche quem comecou a "minar a curiosidade (Wille) do saber através da seducäo (Wille) do poder", afirma Sloterdijk na Critica da Razäo Cinica.
domingo, 21 de junho de 2009
curiosidade e lobotomia...
domingo, 7 de junho de 2009
O numero limiar (Emile Borel)
Um grao näo constitui um monte, täo pouco dois gräos, nem três e assim por diante. Por outro lado, todos concordaräo que cem milhoes de graos de trigo formam um monte . Qual é entäo o numero limiar? Podemos dizer que 325.647 graus de trigo näo constitutuem um monte, mas que 325.648 sim? Se é impossivel estabelecer um numero limiar, também será impossivel saber o que é significado por um monte de trigo; as palavras podem näo ter sentido, no entanto, em certos casos extremos todos concordam sobre elas.Emile Borel: Probabilite et certidude
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Politica e Desverdade (é só brincadeira)...
Politica e Desverdade
Politica da Verdade
Um ex-politico do PC passeia-se nas hostes dos seus antigos co-rrelogionários: Para quê?
Peer Steinbrück, Ministro das Financas na RFA: “Näo haverá aumentos nos impostos” - Chanceler alemä convence cristäos-democratas a prometer reducöes dos impostos, para todos...
Pode-se pressupor como do conhecimento geral, que a verdade näo existe. Gracas a Deus acrescentam alguns cérebros mais prudentes – que onde a verdade ainda era enquadrada em palavras, sempre foi pronunciada em acto único e jamais discursivo (monocursivo é o sermäo, aquilo que se ouve por forca e obrigacäo, discursivo é o ping-pong das ideias e opiniöes, é a Ágora, a praca publica) pelo poder dominante (um parentesis para insinuar a justica de forca em detrimento da injustica do Poder), respectivamente pelos seus mandatários. Para apurar este feito, näo necessitamos nem Nietzsche, que incessante o proclamou, quase em mania, nem a Teoria dos Jogos da Linguagem de Wittgenstein (“o falar de uma linguagem é parte de uma actividade, ou de uma forma de vida”), täo pouco da sabedoria historica generalizada.
Mas entre a verdade e a mentira lustrada (uma mentira, que passa despercebida, sem vestigios, que omite as condicöes da sua origem e oculta as intencöes do seu efeito; simultaneamente uma mentira que insiste, que foi apenas o sujeito enganado que ali escorregou) encontram-se inumeros mundos do possivel: näo é, por tal, necessário mentir sempre, onde apenas näo se quer dizer a verdade.
Quando por sistema a mentira prevalece no leque das modalidades da omissäo da verdade, convém postar-se em cautela: estamos entäo no Império das Ilusöes (o que em si näo significa algo de condenável, como se existesse algo de “condenável em si”...). Triste sim poderia ser, que a esta uma vida, que vivemos exaustivamente como ilusäo, talvez pudessemos ter dado uma outra forma – quicas com maior expelicäo de morfinas endogénicas, mais simplesmente dito: com maior teor de felicidade.
A verdade foi para a Politica sempre pensada como degrau na escada caminho arriba, näo cursus honorum mas sim illudo ergo sum (iludo, por tal existo), sempre mais algo a ser feito, e muito menos algo a ser dito: “faz o que eu digo e näo digas o que eu faco” (por fraude e insensatez a lingua denomina “maquiavélico” precisamente o pronunciar desta constatacäo). De outra forma a Politica, o viver indeliberadamente em comunidade, é impensável. A verdade seria sempre que, e aqui seria condiscente um recurso a Nietzsche, a vida na polis significa sempre „viver apesar de”, equivale ao “sobreviver antes de” e ao “afinal porque näo?”: uma infima vantagem na educacäo dos filhos, um safir pretenciosamente insignificante para a mais querida, uma refeicäozita algo mais vantajosa.
Teria-se que, se se pudesse, medir os politicos näo numa escala de verdade, mas numa escala bordada e florida, rotulada no bordo superior „descaramento “e no inferior „com a graca, que o feito de ser humano me facilita“.
Se existe uma diferenca entre a „desverdade politica“ cesariana e a nossa, a pós-burguesa, a moderna?
Primeiramente aquela, é o Imperador quem cria a verdade, ao „dize-la“. A dicotomia näo é verdade e mentira, mas sim verdade e submissäo. Também o escravo imperial, o filósofo de casa, a esposa, a hetara e a concubina, outras etnias e habitantes de outras paisagens teräo tido as suas próprias “verdades”, mas quando a verdade imperial e a näo-imperial colidiam, näo era o seu mais de “verdade” que era investigado – esta foi a invencäo da Inquisicäo – mas era uma que se sobrepunha, sem excepcäo através da violencia (por mais que haja vindo sorrateiramente em forma de submissäo, como a verdade cristä).
O Tirano perdura enquanto a massa nele anteveja a corporizacäo mais sensata e eficiente dos desejário colectivo. Aomomento em que é manifesta a incapacidade do Imperador em aviar o icone do „mais“ (mais terra, mais mulheres, mais cereais, mais circo e mais päo, mais seguranca, mais progresso colectivo), está lacrado o seu ocaso. Este, à parte, o paralelismo que Hitler, Mussolini e todos os ditadores do século XX discerniram no horizonte do seu futuro: o Império Milenário, os Impérios coloniais, os Fascios (feixes), por fim também aquilo em que se converteram as utopias sociais. Todos os Imperadores imperam enquanto a massa o possibilita, enquanto nela anteveja a forma mais eficiente da sua ascencäo. A derradeira estratégia dos Imperadores contra o seu destino foi declarar o rebolico geral contra inimigos reais ou imaginados (em Outubro de 1944, a 150 dias do seu suicidio, Hitler decretava o “povo em tumulto” (Volkssturm), inserindo criancas e velhinhos, tortos e aleijados na tormenta colectiva). A talvez mais fatidica vinganca dos Imperadores é desfazer-se de todos aqueles que näo compreendem, para finalmente eles mesmos poderem entender o mundo.
O politico moderno, pelo contrário, näo corporiza sonho algum (como se a humanidade houvera perdido a nocäo do sonhar), pratica a sua vida sob a mirada do público. O politico moderno é um servidor do sistema, que opera sem querer originar, que näo se responsabiliza nem é resposabilizado pelo sentido ou consequencia dos seus actos (o simples soldado em Abu Ghreib é condenado a 20 anos de prisäo, impune pelo contrário toda a linha de obediencia que o conecta à presidencia estado-unidense).
E os sonhos convertidos realidade (o movimento ecologista, as democracias sul-americanas, eleicäo de Obama, os politicos simpáticos à la Lula) säo os sonhos despojados.
A segunda grande diferenca entre César e o Politico Moderno: quando a verdade imperial era vivida como simples supersticäo, era a vez do imperador pagar pelos seus actos (a impossibilidade da concretizacäo definitiva dos sonhos da massa) – o destino comum dos imperadores romanos, como dos arlequins fachistóides do século XX e do resto dos ditadores näo fascistas. A corporizacäo da esperanca da massa era entäo eliminada, com regularidade fisicamente. O politico moderno, pós-burgues, näo tem mais que temer a integridade fisica. Também ele “inventa” desverdade com perfeita lubrificacäo, mas näo tem mais pudor publico, näo recorre mais ao punhal ou ao cálice de cicuta para repor a honra. Abdica ou é des-eleito, e vai andando, regressa à massa protectora.
Se os imperadores e os politicos säo objectos da público (o termo moderno para „massa“), terá que haver sucedido algo com o publico, que iniciou esta viragem (do instante em que o insucesso era contabilizado com a própria vida para o momento em que a vida só vale a pena ser vivida depois do fracasso – a “re-forma”).
Poderiamos colocar o ponto de viragem na Inquisicäo (existe uma verdade, e esta verdade pode ser extraida, se necessário na fogueira e na camara de instrumentos – esta imagem da domesticacäo do diabo perante as máquinas de tortura tem algo de patético e comovente). Tem também o seu quê de mal estar e desconforto que sejam os próprios sucessores da Inquisicäo que hoje vendam a camara de instrumentos como melhoramento nas condicöes de ser da humanidade. O estandarte da tortura e do crime sempre foi uma representacäo de Deus e só na imaginacäo literária o crime “gratuito” (que näo tem preco, plenamente despojado de intencäo) é obra do Diabo.
E a atracagem deixa-se bem realizar na primeira Declaracäo dos Direitos Humanos: se todos os seres humanos säo iguais, maior probabilidade que sejam os meus próprios sucessores o futuro icone dos sonhos colectivos – compreensivel que näo deseje para a minha procria biológica o destino de um Nero, de um Julio César ou um Cidadäo Louis Capet – é só brincadeira, criancas! Brinco, do latim, illudo, in ludere, para: brincar em, atirar brincando, lancar os dados, estar em jogo...
quarta-feira, 11 de março de 2009
a náusea e um suave sorriso...
Fisicamente a náusea realiza-se, quando as paredes do estomago säo irritadas. Acontece que há também emocöes, uma tentativa, de expelir também algo do ambito das posses da alma(...). É um trejeito do afastamento. As caretas significam a condenacäo das imediacöes, um resolver a situacäo no sentido de uma rejeicäo.
terça-feira, 3 de março de 2009
do bonito das coisas bonitas
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
a invencäo do eu no amor enquanto paixäo
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
teleologia..
Mrs. Goldstein was walking down the street with her two grand-children. A friend stopped to ask her how old they are. She replied: "The doctor is five, the lawyer ist seven."Cathcart & Klein, Plato and a Platypus Walk into a Bar
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
on the road again...
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
As lágrimas do Jesse Jackson
Se passasse revista na eleicäo do nosso presidente para selecionar a imagem mais comovente, näo necessitaria um minuto: o rosto repleto de lágrimas de Jesse Jackson numa praca publica em Chicago ao escutar ao vivo o discurso de vitória de Barack Obama.
Posteriormente Jackson evocou o semblante "majestoso" de Obama e a "memória de todos aqueles mártires e assassinados, cujo sangue corrido possibilitou esta noite" como causa da sua perca de contenance.
Para recordar: Jesse Jackson näo é simplesmente o reverendo de uma igreja baptista, o qual conseguiu canditar-se à presidencia nos EU (mais correctamente: canditado à candidatura presidencial). Jesse Jackson é também o homem que estava ao lado de Martin Luther King no balcäo de um hotel em Memphis, quando soaram os disparos mortais sobre o activista dos direitos civis.
Num olho säo as lágrimas muito pessoais que ali häo corrido. No outro contudo, e no fundo é isto que a todos nos toca, säo as lágrimas do mundo que antevemos ali. Säo certamente também lágrimas de regojizo, do há muito desejado e finalmente alcancado, do sonho que se reverteu em realidade (originariamente estava aqui "infinitamente desejado", querendo insinuar que este pensamento do sonho se situara numa eternidade remota, mas quando penso que Obama é actualmente o unico senador negro, e quando penso que ele é o quinto senador negro em toda a historia do senado americano e quando por ultimo recordo que o primeiro negro no Senado dos Estados Unidos assumiu o cargo em 1870...).
Säo também e sobre tudo lágrimas de medo e de tristeza. O sonho que se reverteu em realidade é o sonho que näo pode mais ser sonhado, é o sonho perdido. E - cacete, juro que näo sou pessimista - com Obama perdemos um dos nossos ultimos sonhos, que alguém venha de algures, para mais com o nimbus daquele que foi durante longos tempos rodeado de preconceitos, e nos salve.
„We will get there“ (chegaremos lá) afirmou Obama no seu discurso vitorioso. „We will get there“, disse MLK no seu ultimo discurso publico. „We will get there“, ouvimos originariamente de Moisés ao entrever a terra prometida.
A filosofia moderna ensina-nos a ser cautelosos com estas promessas. Com demasiada frequencia cristalizam-se nelas os sonhos de toda uma geracäo, de toda uma etnia, de toda a humanidade. Os cesáres romanos näo como despotas de um imenso império mas como vitimas da irrealizabilidade de uma projecäo generalizada (säo estas projecöes generalizadas a origem da fobia das massas de muitos ex-intelectuais iluminados, como Borges, Dos Passos & Co?). Com muitissima probalidade näo existem estas Ilhas dos Abencoados, mais ainda, a sua realidade é inimaginável, se elas existissem näo seriam aquilo, que ela säo. Nunca alcancaremos o seu acolho, mas näo deveriamos jamais cessar de procurá-las.
Näo chegaremos a lugar nenhum, porque näo temos uma meta, ou, em outras palavras: o caminho é a meta. Mas teremos que caminhar e o caminho, que o resultado desta eleicäo nos abre, é mais agradável que os caminhos anteriores. Abraham Lincoln afirmou algum dia: "Quem näo tem uma meta na vida despista-se". É importante saber que estas metas näo säo transmitidas por um deus, mas feitas pelos humanos. É importante saber que cada um se coloca as sua propria meta e percorre o seu caminho. A anunciacäo do "we will get there" tem que ser revertida em cunho pessoal: "You will get there", o que é uma mentira, mas, chega-se mais longe quando a seguimos.
TOPOI
Robert de Niro: esta inexperiencia...
Sarah Silverman: Barack in hebrew means lightening
Honest Abe: Quem näo tem uma meta na vida, despista-se
Der Spiegel: „Já há muito tempo que o mundo näo tinnha uma tal superficie de projecäo"
Barack Obama: if there is anybody out there, who still doubts...
Barack Obama: It´s been a long time coming, ... but tonight change has come to America.
Barack Obama: And to all those watching tonight from beyond our shores... our stories are singular, but our destiny is shared...
US – Senat: até hoje 5 senadores afro-americanos
Jesse Jackson:
LINKS:
http://en.wikipedia.org/wiki/African_Americans_in_the_United_States_Congress
http://elections.nytimes.com/2008/results/president/speeches/obama-victory-speech.html
Uma imensa gratidäo para a Cristina, que originou esta traducäo e me custou uma hora de sono.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
regressäo e filogenética (Freud meets Nietzsche)
S. Freud: A interpretacäo dos sonhos
terça-feira, 28 de outubro de 2008
the swingin´ Fritz (on Martin Walser)...
Mensch, eigentlich sollte meine morgentliche Spiegel-lektüre der Aufspannung eines neuen Tages dienen!
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
domingo, 31 de agosto de 2008
do quente e do frio e do quente...
Cold War, guerra fria.
"O unico meio de libertar completamente o ser humano", afirmava em 1960 Nikita Chruschtow, o sucessor de Estaline no Kremlin, era o caminho do comunismo. John F. Kennedy, na altura presidente dos Estados Unidos, pelo contrário afirmava: "O futuro pertence àqueles que se dedicam à liberdade do individuo".
Um calafrio percorre-me a coluna dorsal ao recordar que houve tempos em que a primeira afirmacäo era mais calentadora ao meu coracäo que a segunda suposicäo.
Näo, que entretanto a "liberdade do individuo" tenha sobreposto em importancia a "libertacäo irresidual do ser humano" (o que de alguma maneira exigiria uma condensacäo pessoal de Freud, Marx e Nietzsche). Acontece simplesmente que na proximidade dos apologistas da "liberdade individual" se vive melhor, mais levemente, mais agradavelmente, que na companhia dos porta-bandeira da "libertacäo irresidual do ser humano". É uma rectrovolucäo de Goya, o iluminista, ao inventar o titulo para o capricho "El Sueno de la Razon produce Muenstros" (o sono - el sueno - da razäo), talvez pressentindo que também o sonho (el sueno) da Razäo virá gendrar monstros na vida.
É, creio, a primeira vez que traduzo (traduzir: näo criar, mas transpor de uma lingua a outra, e o pensamento transposto é um pensamento defunto) um pensamento meu, expresso num outro lugar. É, temo, a influencia da idade. O pensador que se traduz a si mesmo, deixou de pensar.
NOTES:
Gil Evans: Out of the cool
Gil Evans: Into the hot
Der Spiegel 25/2008
Goya: El sueno de la razon produce muenstros
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
swinging diamonds (Diamantes em corda bamba)
Acontece com frequencia que algumas ideias nunca visitam certos seres, outras visitam-nos mas demasiado cedo, os seres ainda näo ´maduros´ para elas. Acontece também que algumas chegam demasiado tarde - creem os defensores mais radicais que a morte de um ser é a juncäo de todas as ideias num ultimo suspiro, numa derradeira queda. Há outras ideias que preferem certas espécies ou certas geografias ou mesmo climas especificos.
Há algumas ideias mais nobres, que necessitam serem introduzidas por outras. Algumas säo täo complexas que levaram os seus pensadores à loucura, ao suicidio, à eternidade outros. Algumas säo inclusivamente impensáveis, como o Pi e a quadradura do circulo, ou o infinito ou o infimo. Há uma lenda também. que canta que as ideias säo um castigo dos Deuses, pela soberbia insensatez de alguém que um dia ousou imaginar o Absoluto.
domingo, 27 de julho de 2008
realizando sonhos...
"when you’re screwing up and nobody’s saying anything to you anymore, that means they gave up. And that’s a lesson that stuck with me my whole life. Is that when you see yourself doing something badly and nobody’s bothering to tell you anymore, that’s a very bad place to be. Your critics are your ones telling you they still love you and care."
"Quando tudo te sai mal e ninguém mais te repreende, significa que te abandonaram. (...) A questäo é que quando te deparas perante ti mesmo fazendo coisas menos boas e ninguém se dá ao trabalho de dizer-te-lo, é porque estás realmente num local muito mau. Os teus criticos säo aqueles teus dizendo-te que ainda gostam de ti e se interessam"
MATERIALS:
Transcripcäo original da Last Lecture
http://download.srv.cs.cmu.edu/~pausch/Randy/pauschlastlecturetranscript.pdf
A Last Lecture no youtube
http://www.youtube.com/watch?v=ji5_MqicxSo
Experience is what you get, when you do not get what you want.
Randy Pausch
quinta-feira, 17 de julho de 2008
poesia & auto-poiesis...
Faltar pode à sua pátria o grande Osuna
mas näo a sua defesa as suas azanhas
deram-lhe morte e carcel as Espanhas
de quem ele fez escrava a Fortuna
...
O pranto militar cresceu em diluvio
deu-lhe o melhor lugar Marte em seu solo
a Mosela, o Reno, o Tejo e o Danubio
murmuram com dor o seu desconsolo
Analisa Borges que
"Quevedo deixou-se arrastrar pela ideia de um herói chorado pela geografia das suas campanhas e por rios ilustres. (...) Houvera sido mais verdadeiro dizer a verdade (...). Com a morte [de um ser humano] morre uma cara que näo se repetirá, segundo observou Plinio. Cada ser humano tem uma cara única e com ele morrem milhares de circunstancias, milhares de recordacöes. Recordacöes de infancia e rasgos humanos demasiadamente humanos. Quevedo parece näo sentir nada disto. Havia morrido na carcel o seu amigo, duque de Osuna, e Quevedo escreve este soneto com frialdade."
É senso comum que os unicos e verdadeiros amigos säo os amigos que sentem e vivem a amizade sem exaltacäo e com sobriedade, que a amizade por exaltacäo é uma amizade por algo näo existente, por uma mera projecäo (nas palavras de Aristoteles, no nono livro da Ética a Nicomachos: "näo se amavam um ao outro, mas sim aquilo que estava em eles, e isso näo era duradouro"). É senso comum ainda, que há um caminho e uma árdua tarefa antes de conseguir estabeler um elo de ligacäo entra a projecäo que cada um de si faz e o que cada um é (é dificil também tornar-se amigo um de si mesmo). Näo sei se será ainda senso comum, que esse elo de ligacäo é uma tarefa infinita, e como tal, talvez seja conveniente ir cumprindo-la com uma boa racäo de prazer.
Recordei-me näo sem algum assombro que 1977 é annus horribilis na história argentina, de plena "Guerra Suja", a Junta Militar do General Videla, Desaparecidos, as Maes da Praca de Maio... e que enquanto Borges proferia a sua conferencia sobre Quevedo, quizas na mesma manzana (o quarteiräo portenho), uma outra poesia, esta terrivel e sangrenta, se realizava.
Näo sei quem disse que "nos tempos que passam é um crime falar de poesia", o que é verdade - mas täo verdade é também a sua inversäo "nos tempos que passam é um crime näo viver em poesia".
Borges terminou essa conferencia em 1977 com um verso de Angelus Silesius lido em alemäo , que vai assim:
Die Rose ist ohne warum; sie blühet weil sie blühet.
(A rosa é sem porque; floresce porque floresce.)
Angelus Silesius
acrescento como epilogo:
Der Dorn hat einen Warum...!
O espinho tem um porque...!
P.S.
Complicada esta coisa da Poesia. Auto-poiesis é o processo de autocriacäo e automanutencäo de um sistema. Consta que a vida é autopoiética, e a poesia como parte da vida... Autopoiético também este sorridente entardecer de um céu de veräo cinzento, por trás do qual descortino imensos palcos azuis. Também ele näo tem porquê.
Athene noctua
Peter Sloterdijk: Kopernikanische Mobilmachung und
ptolemäische Abrüstung (mobilizacäo copernicana e desarmamento ptolemaico)
Dizia Schrödinger que a vida é um estado de desequilibrio (o equilibrio seria e é a morte). O "ultimo saber" de Sloterdijk é um livro escrito no Impossivel, algo que nos seduz por näo existir, näo podendo também näo ser imaginado. É o olhar estupefacto da coruja, aquela que ve na noite (mais correctamente do mocho-galego, da Athene noctua), companheira da insuperável Athena, deusa da sabedoria. É quicas, o que o cosmopolitismo popular expressou posteriorment num proverbio, "levar corujas para Atenas" (fazer algo inutil).
segunda-feira, 14 de julho de 2008
LEONARD COHEN: Everybody knows
Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
Everybody knows that the war is over
Everybody knows the good guys lost
Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
Thats how it goes
Everybody knows
Everybody knows that the boat is leaking
Everybody knows that the captain lied
Everybody got this broken feeling
Like their father or their dog just died
Everybody talking to their pockets
Everybody wants a box of chocolates
And a long stem rose
Everybody knows
Everybody knows that you love me baby
Everybody knows that you really do
Everybody knows that youve been faithful
Ah give or take a night or two
Everybody knows youve been discreet
But there were so many people you just had to meet
Without your clothes
And everybody knows
Everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows
Everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows
And everybody knows that its now or never
Everybody knows that its me or you
And everybody knows that you live forever
Ah when youve done a line or two
Everybody knows the deal is rotten
Old black joes still pickin cotton
For your ribbons and bows
And everybody knows
And everybody knows that the plague is coming
Everybody knows that its moving fast
Everybody knows that the naked man and woman
Are just a shining artifact of the past
Everybody knows the scene is dead
But theres gonna be a meter on your bed
That will disclose
What everybody knows
And everybody knows that youre in trouble
Everybody knows what youve been through
From the bloody cross on top of calvary
To the beach of malibu
Everybody knows its coming apart
Take one last look at this sacred heart
Before it blows
And everybody knows
Everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows
Oh everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows
Everybody knows
quinta-feira, 10 de julho de 2008
NANCY SINATRA: bang, bang...
my baby shot me down
I was five and he was six
We rode on horses made of sticks
He wore black and I wore white
He would always win the fight
B*ng b*ng, he shot me down
B*ng b*ng, I hit the ground
B*ng b*ng, that That awful sound
B*ng b*ng, my baby shot me down
Seasons came and changed the time
When I grew up, I called him mine
He would always laugh and say
Remember when we used to play?
B*ng b*ng, I shot you down
B*ng b*ng, you hit the ground
B*ng b*ng, that awful sound
B*ng b*ng, I used to shoot you down
Music played and people sang…
Just for me the church bells rang…
Now he's gone I don't know why
And till this day some times I cry
He didn't even say goodbye
He didn't take the time to lie
B*ng b*ng, he shot me down
B*ng b*ng, I hit the ground
B*ng b*ng, that awful sound
B*ng b*ng, my baby shot me down.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
o numero de inimigos...
Diz Nietzsche em algum lugar que os inimigos dignificam, mas o lema fascista näo me soa nietzscheniano, muito pelo contrário, soa-me mesmo a fascismo (aqui também sem aspas) na sua pior denotacäo, como a descrita em 1900 do Bertolucci.
Tentando uma interpretacäo rápida: o lema de Mussolini foca a quantidade - há uma proporcionalidade directa entre o numero de inimigos e o o valor da honra, quantos mais inimigos mais digno o acto (de aqui o Bertolucci), é o crime pelo crime; o lema nitzscheniano foca a qualidade: näo é o numero de inimigos que é significante, näo é a quantidade, mas sim a qualidade que repercute sobre a dignificacäo. Há fulanos, e a grande maioria dos candidatos entram nesta categoria, que näo merecem ser meus inimigos. Há que merecer-se os seus inimigos também (e, desconfio que seja mais dificil merecer a inimizade de alguém que a sua amizade).
E há um farolito ali a chamar a minha atencäo para algo mais. No elan revolucionário, enquanto o movimento näo é ainda instituicäo, confunde-se com frequencia o numero de inimigos com a veemencia com que se abanica o estandarte da justica (Robespierre, Trotzky), teem sorte os conservadores.
Carlos Aguilar
o algures (MATERIAIS & LINKS ABANDONADOS):
http://estadocivil.blogspot.com/
http://www.ilduce.net/duce.htm

