domingo, 21 de junho de 2009

curiosidade e lobotomia...

Foi Nietzsche quem comecou a "minar a curiosidade (Wille) do saber através da seducäo (Wille) do poder", afirma Sloterdijk na Critica da Razäo Cinica.

Uma falsa pista que ali é colocada - e este é o preco da polémica, que ela deixa demasiadas pistas faltas. Algumas vezes, no entanto, é só a inumerosidade de falsas pistas que desvela o rectilineo do caminho certo (em outras palavras: só pode haver um caminho certo onde infesta de errados).
A falsa pista de Sloterdijk é a mesma falsa pista que Foucault depositou: que nos bastidores do desejo do saber (Wille zum Wissen, curiosidade) vive um enorme crime, que se deseja disfarcar, ou em terminologia politica: Marx leva forcosamente a Estaline e Mao Tse Tung, e Freud obrigatoriamente à lobotomia.
É a interpretacäo possivel do "Sueno de la razon" de Goya näo como sono (abscencia) da Razäo, mas como o sonhar da Razäo (" o sueno - castelhano para sono e sonho - da Razäo produz monstos" titula o Capricho, precisado pelo próprio Goya num comentário: "A fantasia, abandonada pela razäo, produz monstros impossiveis; unida com ela é a mäe das artes e a fonte dos milagres").
Há de facto uma suposicäo esperta, de que o Sono foi uma ironia goyesca, na verdade Goya estava ciente que o Sonho da Razäo causa maiores danos que o Sono da mesma. A figura de Napoleäo e as atrocidades das cruzadas bonapartitas retratadas por Goya permitem, no minimo, esta interpretacäo. Um pré-estudo de Goya para o Capricho 43 tem por titulo "El idioma universal", um projecto do ilumismo, satirizado por Jonathan Swift nas Viagens de Gulliver (para uma transmissäo um por um - a plena equivalencia - teriamos que ir com uma sacola enorme na proxima tasca para poder insinuar uma chavena de café - queriamos vender a chávena? o café? ou até bebe-lo naquela chavena? ou simplesmente inquirir o preco?).
Estas consideracöes reconduzem à pista primordial, à metaforologia de Blumenberg: há pensamentos (teses, teorias, escolas) que se indepentizam e convertem em propriegade publica de todo um circulo cultural (säo um construto holo-social, a morte do autor). Tanto o Sueno de Goya como o pensamento do Querer para o Saber como curiosidade do Saber, que conduz ao Querer para o Poder-Ser como Desejo do Poder é uma interpretacäo metaforológica.


Notas:
Wille, o querer, o desejo, inclui em alemäo o conceito do "querer", a vontade consciente - coisa esquisita esta -, e o "desejar", algo mais profundo, mais distante, menos eu, mais exogéneo. É um sinonimo da rotacäo continua de todas as coisas - genocidios incluidos? -, a afirmacäo absoluta, para além do Bem e do Mal.
Uma das propostas da traducäo do "Wille zur Macht" nietscheniano foi "vontade de potencia", o que traduz a intencäo mais provável de Nietzsche . Vontade de potencia equivale ao näo temer o possivel (o poder-ser), o eterno regresso: "tudo vai, tudo regressa, eternamente rola a roda do Ser. Tudo morre, tudo floresce novamente, eternamente corre o ano do Ser" (Assim falava Zaratustra).
"Näo acertou na verdade aquele que disparou a palavra do 'vontade do Ser' (Wille zum Dasein): esta vontade - näo existe!
Porque: o que é, näo pode querer; mas aquilo que está no Ser (Dasein, estar-aí), como poderia isto querer ainda ser?
Só onde está vida, está também querer: mas näo querer a vida (Wille zum Leben), mas sim (...) querer o poder (Wille zur Macht, a possibilidade de ser)".

LINKS:
Jorge Luis Borges: El idioma analítico de John Wilkinks

domingo, 7 de junho de 2009

O numero limiar (Emile Borel)

Um grao näo constitui um monte, täo pouco dois gräos, nem três e assim por diante. Por outro lado, todos concordaräo que cem milhoes de graos de trigo formam um monte . Qual é entäo o numero limiar? Podemos dizer que 325.647 graus de trigo näo constitutuem um monte, mas que 325.648 sim? Se é impossivel estabelecer um numero limiar, também será impossivel saber o que é significado por um monte de trigo; as palavras podem näo ter sentido, no entanto, em certos casos extremos todos concordam sobre elas.
Emile Borel: Probabilite et certidude
NOTAS:
Limiar:Limes (limes, limitis) foi a separacäo sólida entre o Império Romano e a Barbaridade (entre o Reno e o Danubio) - foi a fronteira intrespassavel no unico espaco romano näo rodeado por água. Está, evidentemente, na origem etimologica do "limite"  das linguas romanicas.
Discute-se todavia se o limes em si era parte ou já o Além-de do Império Romano - Tarkowsky, em Stalker, insinua, que näo existe o Além-de, ao qual ele chama "A Zona" - seria o espaco no qual todos os desejos se converteriam em realidade, a felicidade absoluta, e que täo pouco existe o Limite (näo passa de uma ficcäo necessária, para proporcionar a felicidade).

LINKS:

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Politica e Desverdade (é só brincadeira)...

Politica e Desverdade

Politica da Verdade

Um ex-politico do PC passeia-se nas hostes dos seus antigos co-rrelogionários: Para quê?

Peer Steinbrück, Ministro das Financas na RFA: “Näo haverá aumentos nos impostos” - Chanceler alemä convence cristäos-democratas a prometer reducöes dos impostos, para todos...

 

Pode-se pressupor como do conhecimento geral, que a verdade näo existe. Gracas a Deus acrescentam alguns cérebros mais prudentes – que onde a verdade ainda era enquadrada em palavras, sempre foi pronunciada em acto único e jamais discursivo (monocursivo é o sermäo, aquilo que se ouve por forca e obrigacäo, discursivo é o ping-pong das ideias e opiniöes, é a Ágora, a praca publica) pelo poder dominante (um parentesis para insinuar a justica de forca em detrimento da injustica do Poder), respectivamente pelos seus mandatários. Para apurar este feito, näo necessitamos nem Nietzsche, que incessante o proclamou, quase em mania, nem a Teoria dos Jogos da Linguagem de Wittgenstein (“o falar de uma linguagem é parte de uma actividade, ou de uma forma de vida”), täo pouco da sabedoria historica generalizada.

Mas entre a verdade e a mentira lustrada (uma mentira, que passa despercebida, sem vestigios, que omite as condicöes da sua origem e oculta as intencöes do seu efeito; simultaneamente uma mentira que insiste, que foi apenas o sujeito enganado que ali escorregou) encontram-se inumeros mundos do possivel: näo é, por tal,  necessário mentir sempre, onde apenas näo se quer dizer a verdade.

Quando por sistema a mentira prevalece no leque das modalidades da omissäo da verdade, convém postar-se em cautela: estamos entäo no Império das Ilusöes (o que em si näo significa algo de condenável, como se existesse algo de “condenável em si”...). Triste sim poderia ser, que a esta uma vida, que vivemos exaustivamente como ilusäo, talvez pudessemos ter dado uma outra forma – quicas com maior expelicäo de morfinas endogénicas, mais simplesmente dito: com maior teor de felicidade.

A verdade foi para a Politica sempre pensada como degrau na escada caminho arriba, näo cursus honorum mas sim illudo ergo sum (iludo, por tal existo), sempre mais algo a ser feito, e muito menos algo a ser dito: “faz o que eu digo e näo digas o que eu faco” (por fraude e insensatez a lingua denomina “maquiavélico” precisamente o pronunciar desta  constatacäo). De outra forma a Politica, o viver indeliberadamente em comunidade, é impensável. A verdade seria sempre que, e aqui seria condiscente um recurso a Nietzsche, a vida na polis significa sempre „viver apesar de”, equivale ao “sobreviver antes de”  e ao “afinal porque näo?”: uma infima vantagem na educacäo dos filhos, um safir pretenciosamente insignificante para a mais querida, uma refeicäozita algo mais vantajosa.

Teria-se que, se se pudesse, medir os politicos näo numa escala de verdade, mas numa escala bordada e florida, rotulada no bordo superior „descaramento “e no inferior „com a graca, que o feito de ser humano me facilita“.

Se existe uma diferenca entre a „desverdade politica“ cesariana e a nossa, a pós-burguesa, a moderna?

Primeiramente aquela, é o Imperador quem cria a verdade, ao „dize-la“. A dicotomia näo é verdade e mentira, mas sim verdade e submissäo. Também o escravo imperial, o filósofo de casa, a esposa, a hetara e a concubina, outras etnias e habitantes de outras paisagens teräo tido as suas próprias “verdades”, mas quando a verdade imperial e a näo-imperial colidiam, näo era o seu mais de “verdade” que era investigado – esta foi a invencäo da Inquisicäo – mas era uma que se sobrepunha, sem excepcäo através da violencia (por mais que haja vindo sorrateiramente em forma de submissäo, como a verdade cristä).

O Tirano perdura enquanto a massa nele anteveja a corporizacäo mais sensata e eficiente dos desejário colectivo. Aomomento em que é manifesta a incapacidade do Imperador em aviar o icone do „mais“ (mais terra, mais mulheres, mais cereais, mais circo e mais päo, mais seguranca, mais progresso colectivo), está lacrado o seu ocaso. Este, à parte, o paralelismo que Hitler, Mussolini e todos os ditadores do século XX discerniram no horizonte do seu futuro: o Império Milenário, os Impérios coloniais, os Fascios (feixes), por fim também aquilo em que se converteram as utopias sociais. Todos os Imperadores imperam enquanto a massa o possibilita, enquanto nela anteveja a forma mais eficiente da sua ascencäo. A derradeira estratégia dos Imperadores contra o seu destino foi declarar o rebolico geral contra inimigos reais ou imaginados (em Outubro de 1944, a 150 dias do seu suicidio, Hitler decretava o “povo em tumulto” (Volkssturm), inserindo criancas e velhinhos, tortos e aleijados na tormenta colectiva). A talvez mais fatidica vinganca dos Imperadores é desfazer-se de todos aqueles que näo compreendem, para finalmente eles mesmos poderem entender o mundo.

O politico moderno, pelo contrário, näo corporiza sonho algum (como se a humanidade houvera perdido a nocäo do sonhar), pratica a sua vida sob a mirada do público. O politico moderno é um servidor do sistema, que opera sem querer originar, que näo se responsabiliza nem é resposabilizado pelo sentido ou consequencia dos seus actos (o simples soldado em Abu Ghreib é condenado a 20 anos de prisäo, impune pelo contrário toda a linha de obediencia que o conecta à presidencia estado-unidense).

E os sonhos convertidos realidade (o movimento ecologista, as democracias sul-americanas, eleicäo de Obama, os politicos simpáticos à la Lula) säo os sonhos despojados.

A segunda grande diferenca entre César e o Politico Moderno: quando a verdade imperial era vivida como simples supersticäo, era a vez do imperador pagar pelos seus actos (a impossibilidade da concretizacäo definitiva dos sonhos da massa) – o destino comum dos imperadores romanos, como dos arlequins fachistóides do século XX e do resto dos ditadores näo fascistas. A corporizacäo da esperanca da massa era entäo eliminada, com regularidade fisicamente. O politico moderno, pós-burgues, näo tem mais que temer a integridade fisica. Também ele “inventa” desverdade com perfeita lubrificacäo, mas näo tem mais pudor publico, näo recorre mais ao punhal ou ao cálice de cicuta para repor a honra.  Abdica ou é des-eleito, e vai andando, regressa à massa protectora.

Se os imperadores e os politicos säo objectos da público (o termo moderno para „massa“), terá que haver sucedido algo com o publico, que iniciou esta viragem (do instante em que o insucesso era contabilizado com a própria vida para o momento em que a vida só vale a pena ser vivida depois do fracasso – a “re-forma”).

Poderiamos colocar o ponto de viragem na Inquisicäo (existe uma verdade, e esta verdade pode ser extraida, se necessário na fogueira e na camara de instrumentos – esta imagem da domesticacäo do diabo perante as máquinas de tortura tem algo de patético e comovente). Tem também o seu quê de mal estar e desconforto que sejam os próprios sucessores da Inquisicäo que hoje vendam a camara de instrumentos como melhoramento nas condicöes de ser da humanidade. O estandarte da tortura e do crime sempre foi uma representacäo de Deus e só na imaginacäo literária o crime “gratuito” (que näo tem preco, plenamente despojado de intencäo) é obra do Diabo.

E a atracagem deixa-se bem realizar na primeira Declaracäo dos Direitos Humanos: se todos os seres humanos säo iguais, maior probabilidade que sejam os meus próprios sucessores o futuro icone dos sonhos colectivos – compreensivel que näo deseje para a minha procria biológica o destino de um Nero, de um Julio César ou um Cidadäo Louis Capet – é só brincadeira, criancas! Brinco, do latim, illudo, in ludere, para: brincar em, atirar brincando, lancar os dados, estar em jogo...

quarta-feira, 11 de março de 2009

a náusea e um suave sorriso...

Fisicamente a náusea realiza-se, quando as paredes do estomago säo irritadas. Acontece que há também emocöes, uma tentativa, de expelir também algo do ambito das posses da alma(...). É um trejeito do afastamento. As caretas significam a condenacäo das imediacöes, um resolver a situacäo no sentido de uma rejeicäo.
Alfred Adler, Conhecer o ser humano
Quando eu, adolescente, li pela primeira - e ultima - vez A náusea de Jean-Paul Sartre (o meu primeiro encontro intectual com a náusea), conseguia pelo menos imaginar essa irritacäo (sensibilizacäo) das paredes do estomago; hoje (também no convivio real com as formas de expressäo humana que causam esse afecto) fica só um sorriso, como suave recordacäo desses tempos e dessa irritacäo do passado.

terça-feira, 3 de março de 2009

do bonito das coisas bonitas

"Os homens amam o que desejam e as mulheres desejam o que amam", eis um bom exemplar daquilo que poderiamos apelidar de "uma frase bonita" - esta, que inclui a outra, pelo contrário, um otimo exemplo de uma näo bonita.
É o lema de capa ou contra-capa, de um livro que me ofereceu a minha namorada comprometida, com a gentileza de näo colocar dedicatória, como sou um homem poli-comprometido, cujo titulo insinua um mapa ou uma descricäo de percurso: "Onde Reside o Amor" de Margarida Rebelo Pinto. É um livro muito bonito também (isto quer implicar que poderá haver livros que contenham muitas frases bonitas, mas näo sejam livros bonitos - este parentesis requer uma explicacäo que segue mais tarde), um livro de amena digestäo, escrito por uma senhorita queque e alfacinha (esta fixacäo de "queque e alfacinha" é a minha visäo dos anos 70 da mullher emancipada: atrevida - este o siginificado do keck em alemäo -, sensual, independente, responsável com ligeireza nas saias curtas).
Regressando ao moto inicial, ao "os homens que amam e as mulheres que desejam" - é uma frase escandalosamente simples, que näo requer explicacöes adicionais, daquelas sentencas que comumente citamos afirmando: "Como já dizia a minha avó", ou "como bem sabia o meu avô" ou "já a minha tia previa". E, aí nasceu a minha suspeita: Porquê essas frases que com frequencia cremos que houveram poder sido postuladas pelos nossos ancestrais menos complexos e mais ligados à vida, em toda a generalidade säo expressas por pessoas que só säo menos complexos no sentido que depassaram essa complexidade, transmitindo conteudos complexos em frases simples? Porquê, entre as pessoas que nos transmitem essas frases que podiam ser dos nossos pais, ou bisavós ou sei lá eu o quê, figuram nomes como Fernando Pessoa (figura altamente erudita e poliglota), Chico Buarque (familia de enciclopedista, sociologos, intelectuais), Erwin Schrödinger (o tal da mecanica quantica), Richard Feynman e por aí fora? E por que razäo dos meus avós, senhores que compartilhavam a noite com a natureza entre lobos, caes da Serra, cabras e ovelhas - näo me recordo dessas frases?
Li há algum tempo de um pensador moderno que sob o efeito de estupefacientes ficava atonito da simplicidade e da clareza do mundo, e mais atonito pelo esquecimento do porquê dessa justificacäo do mundo constantemente conjugado com o findar do efeito do estupefaciente. Até que um certo dia antes de acender as primeiras passitas, colocou um caderno e uma esferografica à mäo para anotar a quinta-essencia do mundo, quando ela lhe viesse, o que näo se fez esperar.
No dia seguinte depois da ressaca, abriu a sua sebenta e encontrou a razäo de ser de todas as coisas, que havia anotado no dia anterior: "Tudo no mundo tem um odor parecido ao petróleo".

Um livro näo é aquela coisa geralmente mais comprida que larga, encadernada. com as folhas cortadas a prumo. Um livro é aquilo que sucede entre essa coisa encadernada e a cabecinha através de cujos olhos as palavras nele impressas se re-produzem de pernas para o ar. No fundo, nem uma reproducäo é, mas sim um jogo, um cintilar que efectua entre os dois - entre o livro e o seu leitor. Este é um tema de Jorge Luis Borges, näo há livros bonitos em si, nem leitores feios em si, há juncöes malogradas e há juncöes sucedidas. O livro certo na pessoa certa, aí reside a literatura. É um tema de Blumenberg também, "ler é escrever", e, mais remotamente, o tema da fenomenologia - ter consciencia de näo é aperceber qualquer coisa exterior ao perceptor, mas sim preencher a distancia que está entre ambos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

a invencäo do eu no amor enquanto paixäo

O amor romantico (o amor enquanto paixäo), aquele das cartas infinitas, dos telefonemas intermenináveis, dos  coracöes derretidos, é um fenónemo da época moderna, diz N. Luhmann.
"Näo é um sentimento, mas um código de comunicacäo, sob cujas regras podemos expressar sentimentos, construir, simular, suspeitar de outrem, negar(...), é um modelo de comportamento, que pode ser representado, que está à nossa vista, antes de embarcarmos partindo em busca do amor".
Amor enquanto paixäo é um "meio de comunicacäo simbolicamente generalizado", que torna provavel uma comunicacäo improvável.
Porquê "comunicacäo improvável"? Porque uma "autentica" comunicacäo é impossivel. O outrem para além do meu eu é infinitamente inacessivel, para além do meu Eu (que nem Freud, nem Marx, nem a mecanica quantica até hoje me conseguiram dizer quem ele é) Ding-an-Sich kantianos sem fim.
O amor enquanto paixao baixa o limiar do "autentico" nessa comunicacäo impossivel, permite uma simulacäo de "autenticidade", ou, nas palavras do proprio Luhmann "as pessoas reduzem o limiar de relevancia no relacionamento entre elas, com a consequencia de que aquilo que é relevante para um é quase sempre também relevante para o outro."
Porquê um "fenómeno da época moderna"  e näo uma constante da condicäo humana, ou uma constante da vida? Porque ali, na burguesia do seculo XVIII se alicerca a diferenciacäo funcional dos nossos dias, em que o individuo se encontra numa "policontexturalidade comunicativa" que dificulta a interacäo germinadora de identidade e inventa o recurso à intimidade, ao amor enquanto paixäo, "disposicöes semanticas que possibilitam apesar de tudo o sucesso de comunicacöes improváveis. 'Posibilitar o sucesso' significa: aumentar a susceptibilidade de comunicacäo de forma que se ousa a comunicacäo näo a abandonando à partida como ilusória".

Näo é o "sentimento" (que é subjectivo e instrasmissivel), mas o código de comunicacäo -o dispositivo semantico gerador de sentido - que é compreensivel, porque objectivavel e historicamente observavel (nas cartas de amor, na poesia, nas literaturas) que é o tema.
Amor enquanto paixäo, o amor dos nossos dias, é o amor passivo, do qual somos "vitimas", o qual näo podemos evitar. O (in-)dividuo que se descobre como ser divido em inumeros papéis, procura a sua identidade (como totalidade, como in-dividuo), cria o seu sentido, baixa o limiar de relevancia, e re-encontra-se, cria-se ou, mais nietzscheniano, inventa-se.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

teleologia..

tudo tem uma finalidade, dizia Aristoteles, e nominou-a Telos, a causa final (causa finalis). A finalidade de um rato é uma refeicäo nos dentes de um gatinho, e consta que a finalidade de um paio de Trás-Os-Montes reside numas Tripas à Ribeira.
Mrs. Goldstein was walking down the street with her two grand-children. A friend stopped to ask her how old they are. She replied: "The doctor is five, the lawyer ist seven."
Cathcart & Klein, Plato and a Platypus Walk into a Bar
A Sra. Manela ia descendo da Sé para a Ribeira com os seus dois netos. Uma amiga parou para perguntar a idade das criancas. Ela respondeu: "O doutor tem cinco, o advogado sete."


sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

on the road again...

Alguém me recordou que uma boa razäo para näo curtir o Natal é dada pela hipocrisia que se amontoa em redor dos dias 24/25 de Dezembro. Era o meu ponto de vista e, como alguma vez na vida optei pelo advocatus diaboli (ver as coisas do outro lado, é ver mais das coisas), pensei: e, se extendessemos (estender? extender?) essa hipocrisia a todos os outros dias do ano? Se todos os dias optássemos pelo "deixar para trás", optássemos pela decisäo de colocarmos uma máscara conciliadora em vez de rebater coisas desestruturadas (essa coisa de rebater muito uma questäo acaba por quebrar-lhe a estrutura, ficam questöes sem espinha dorsal, sem porquê - die Rose blüht und sie kennt kein Warum, em portugues: a rosa floresce porque näo tem porquê, recordou Borges - ... estou em recordacöes hoje, está visto).
Entre as muitas coisas da vida que näo teem porquê (digamos assim: se elas tivessem ou tiverem um porque convém a gente ocultá-lo e esquece-lo): o amor e a paixäo, a amizade - tem condicöes a amizade, näo sou amigo de näo importa quem, mas näo tem porquê - e a poesia, a vida.

P.S.
Poderia dedicar esta coisa a um colega e cyber-amigo meu (a propósito dedicar alguma coisa a alguém é compartilhar alguma coisa com alguém, que pode ser um sorriso ou uma lágrima). 

TOPOI:
Sarah Silverman: give the jew girl toys
On the road again:
Robert Putnam: Bowling Alone
George Santayana: "Those who cannot remember the past are condemned to repeat it."

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

As lágrimas do Jesse Jackson

Se passasse revista na eleicäo do nosso presidente para selecionar a imagem mais comovente, näo necessitaria um minuto: o rosto  repleto de lágrimas de Jesse Jackson numa praca publica  em Chicago ao escutar ao vivo o discurso de vitória de Barack Obama.

Posteriormente Jackson evocou o semblante "majestoso" de Obama e a "memória de todos aqueles mártires e assassinados, cujo sangue corrido possibilitou esta noite" como causa da sua perca de contenance.

Para recordar: Jesse Jackson näo é simplesmente o reverendo de uma igreja baptista, o qual conseguiu canditar-se à presidencia nos EU (mais correctamente: canditado à candidatura presidencial). Jesse Jackson é também o homem que estava ao lado de Martin Luther King no balcäo de um hotel em Memphis, quando soaram os disparos mortais sobre o activista dos direitos civis.

Num olho säo as lágrimas muito pessoais que ali häo corrido. No outro contudo, e no fundo é isto que a todos nos toca, säo as lágrimas do mundo que antevemos ali. Säo certamente também lágrimas de regojizo, do há muito desejado e finalmente alcancado, do sonho que se reverteu em realidade (originariamente estava aqui "infinitamente desejado", querendo insinuar que este pensamento do sonho se situara numa eternidade remota, mas quando penso que Obama é actualmente o unico senador negro, e quando penso que ele é o quinto senador negro em toda a historia do senado americano e quando por ultimo recordo que o primeiro negro no Senado dos Estados Unidos assumiu o cargo em 1870...).

Säo também e sobre tudo lágrimas de medo e de tristeza. O sonho que se reverteu em realidade é o sonho que näo pode mais ser sonhado, é o sonho perdido. E - cacete, juro que näo sou pessimista - com Obama perdemos um dos nossos ultimos sonhos, que alguém venha de algures, para mais com o nimbus daquele que foi durante longos tempos rodeado de preconceitos, e nos salve.

„We will get there“ (chegaremos lá) afirmou Obama no seu discurso vitorioso. „We will get there“, disse MLK no seu ultimo discurso publico. „We will get there“, ouvimos originariamente de Moisés ao entrever a terra prometida.

A filosofia moderna ensina-nos a ser cautelosos com estas promessas. Com demasiada frequencia cristalizam-se nelas os sonhos de toda uma geracäo, de toda uma etnia, de toda a humanidade. Os cesáres romanos näo como despotas de um imenso império mas como vitimas da irrealizabilidade de uma projecäo generalizada (säo estas projecöes generalizadas a origem da fobia das massas de muitos ex-intelectuais iluminados, como Borges, Dos Passos & Co?). Com muitissima probalidade näo existem estas Ilhas dos Abencoados, mais ainda, a sua realidade é inimaginável, se elas existissem näo seriam aquilo, que ela säo. Nunca alcancaremos o seu acolho, mas näo deveriamos jamais cessar de procurá-las.

Näo chegaremos a lugar nenhum, porque näo temos uma meta, ou, em outras palavras: o caminho é a meta. Mas teremos que caminhar e o caminho, que o resultado desta eleicäo nos abre, é mais agradável que os caminhos anteriores. Abraham Lincoln afirmou algum dia: "Quem näo tem uma meta na vida despista-se". É importante saber que estas metas näo säo transmitidas por um deus, mas feitas pelos humanos. É importante saber que cada um se coloca as sua propria meta e percorre o seu caminho. A anunciacäo do "we will get there" tem que ser revertida em cunho pessoal: "You will get there", o que é uma mentira, mas, chega-se mais longe quando a seguimos. 

TOPOI

Robert de Niro: esta inexperiencia...

Sarah Silverman: Barack in hebrew means lightening

Honest Abe: Quem näo tem uma meta na vida, despista-se

Der Spiegel: „Já há muito tempo que o mundo näo tinnha uma tal superficie de projecäo"

Barack Obama:  if there is anybody out there, who still doubts...

Barack Obama: It´s been a long time coming, ... but tonight change has come to America.

Barack Obama: And to all those watching tonight from beyond our shores... our stories are singular, but our destiny is shared...

US – Senat: até hoje 5 senadores afro-americanos

Jesse Jackson:

LINKS:

http://en.wikipedia.org/wiki/African_Americans_in_the_United_States_Congress

http://elections.nytimes.com/2008/results/president/speeches/obama-victory-speech.html


P.S. (personal somehow)

Uma imensa gratidäo para a Cristina, que originou esta traducäo e me custou uma hora de sono.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

regressäo e filogenética (Freud meets Nietzsche)

O sonhar será na sua totalidade um pouco de regressäo às condicöes mais remotas do sonhador, um reviver da sua infancia, das motivacöes que aí haviam dominado e das formas de expressäo que estavam à disposicäo. Por trás desta infancia individual é-nos prometido um vislumbre na infancia filogenética, na evolucäo da humanidade, da qual aquela de cada um é de facto uma repeticäo acurtada, influenciada pelas casualidades das condicöes do viver. Entrevemos, como säo precisas as palavras de Fr. Nietzsche, que no sonho "se pratica uma ancestral pecita da humanidade, à qual näo podemos aceder de forma directa" e somos induzidos à esperanca, de através da análise dos sonhos chegar ao conhecimento da heranca arcaica do ser humano, conhecer aquilo que nele é espiritualmente nato.

S. Freud: A interpretacäo dos sonhos

terça-feira, 28 de outubro de 2008

the swingin´ Fritz (on Martin Walser)...

Mensch, eigentlich sollte meine morgentliche Spiegel-lektüre der Aufspannung eines neuen Tages dienen!

Na ja, ein Paar Gedankenfetzen zur Musik und Genealogie kann auch nicht schaden.
Also, dieser swingin´Fritz, der besagte Martin Walser, behauptete in "Capital", Heinrich von Pierer, der frühere Vorstands- und Aufsichtsratschef von Siemens, sei "in den Medien mehr oder weniger zur Hinrichtung präpariert worden, ohne das wirklich etwas nachzuweisen ist". Der arme! Der Schriftsteller Walser hätte auch "angestellt" an Stelle von "nachzuweisen" schreiben können, wenn er denn gewollt, wenn er denn gekonnt, wenn er denn gewusst hätte. Aber der swingin´Fritz ist einer, der von nichts weiss, und wenn er doch etwas weiss, ist er sich sicher, dass er es nicht hätte wissen müssen, und dass für ihn gilt, dass er jenseits von Schuld und Sühne ist.
Dieser swingin´Fritz ist übrigens derselbe, der "nachdem er die bittere Erfahrung gemacht hatte, dass auch Schriftsteller ihre Einnahmen versteuern müssen" (Der Spiegel), beklagte "ich wusste seit einiger Zeit schon, dass dieser Staat ein Raubstaat ist. Da habe ich es dann zu spüren bekommen. Es gibt Kollegen, die sind wegen solcher Überlegungen in die Schweiz gezogen." Der arme!
Dieser morgentlichen Spiegellektüre verdanke ich doch mein melankolisches Lächeln, dass ein alter Mann eine sehr traurige Figur abgeben kann, nicht nur über ihn, sondern über uns, über diese Welt.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

obamania...


Sarah Silverman speaking on my name....


http://thegreatschlep.com/site/index.html


domingo, 31 de agosto de 2008

do quente e do frio e do quente...

OUT OF THE HOT... INTO THE COLD

Cold War, guerra fria.
"O unico meio de libertar completamente o ser humano", afirmava em 1960 Nikita Chruschtow, o sucessor de Estaline no Kremlin, era o caminho do comunismo. John F. Kennedy, na altura presidente dos Estados Unidos, pelo contrário afirmava: "O futuro pertence àqueles que se dedicam à liberdade do individuo".
(Der Spiegel 25/2008)

Um calafrio percorre-me a coluna dorsal ao recordar que houve tempos em que a primeira afirmacäo era mais calentadora ao meu coracäo que a segunda suposicäo.
Näo, que entretanto a "liberdade do individuo" tenha sobreposto em importancia a "libertacäo irresidual do ser humano" (o que de alguma maneira exigiria uma condensacäo pessoal de Freud, Marx e Nietzsche). Acontece simplesmente que na proximidade dos apologistas da "liberdade individual" se vive melhor, mais levemente, mais agradavelmente, que na companhia dos porta-bandeira da "libertacäo irresidual do ser humano". É uma rectrovolucäo de Goya, o iluminista, ao inventar o titulo para o capricho "El Sueno de la Razon produce Muenstros" (o sono - el sueno - da razäo), talvez pressentindo que também o sonho (el sueno) da Razäo virá gendrar monstros na vida.
É, creio, a primeira vez que traduzo (traduzir: näo criar, mas transpor de uma lingua a outra, e o pensamento transposto é um pensamento defunto) um pensamento meu, expresso num outro lugar. É, temo, a influencia da idade. O pensador que se traduz a si mesmo, deixou de pensar.

NOTES:

Gil Evans: Out of the cool
Gil Evans: Into the hot
Der Spiegel 25/2008
Goya: El sueno de la razon produce muenstros

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

swinging diamonds (Diamantes em corda bamba)

há uma teoria, segundo a qual näo säo os seres que pensam as ideias, mas as ideias que elegem onde pousar, como uma abelha pulando de flor em flor. Há alguns seguidores dessa teoria que creem que säo as ideias o real, e que tudo o outro säo fantasias - fantasia o crime, fantasia o desespero e a fome, fantasia também o beijo apaixonado, fantasia o desejo. Creem os mais radicais defensores desta escola, que as ideias inventaram os seres (entre eles os humanos) para poderem discursar, quicas por tédio, e para poderem progredir, quicas por curiosidade.
Acontece com frequencia que algumas ideias nunca visitam certos seres, outras visitam-nos mas demasiado cedo, os seres ainda näo ´maduros´ para elas. Acontece também que algumas chegam demasiado tarde - creem os defensores mais radicais que a morte de um ser é a juncäo de todas as ideias num ultimo suspiro, numa derradeira queda. Há outras ideias que preferem certas espécies ou certas geografias ou mesmo climas especificos.
Há algumas ideias mais nobres, que necessitam serem introduzidas por outras. Algumas säo täo complexas que levaram os seus pensadores à loucura, ao suicidio, à eternidade outros. Algumas säo inclusivamente impensáveis, como o Pi e a quadradura do circulo, ou o infinito ou o infimo. Há uma lenda também. que canta que as ideias säo um castigo dos Deuses, pela soberbia insensatez de alguém que um dia ousou imaginar o Absoluto.

domingo, 27 de julho de 2008

realizando sonhos...

Randy Pausch foi professor de informática na Universidade Carnegie Mellon, USA. Em Agosto de 2007 os médicos haviam-lhe dado tres a seis meses de vida, após detectarem um cancer incurável no pancreas. A 18 de Setembro de 2007 fez a sua "Last Lecture", a ultima aula, geralmente um acontecimento memorável que marca o fim de uma carreira académica.
A Last Lecture de Randy Pausch foi um testemunho, perante um publico universitário, que quiz deixar para a sua esposa e os seus tres filhos - dois, quatro e seis anos de idade, cuja infancia, juventude e adolescencia sabe näo poder acompanhar. Randy Pausch faleceu com 47 anos de idade a semana passada na sua casa em Virginia.
A noticia do seu falecimento está na origem da minha leitura da sua "Ultima Licäo", motivado pela curiosadade de imaginar o que eu faria, se aquela fosse a minha ultima licäo.
Creio mais justo deixar aqui o estrato näo-comentado da Ultima Licäo de Randy Pausch que anotei para incluir no meu próprio testamento:

"when you’re screwing up and nobody’s saying anything to you anymore, that means they gave up. And that’s a lesson that stuck with me my whole life. Is that when you see yourself doing something badly and nobody’s bothering to tell you anymore, that’s a very bad place to be. Your critics are your ones telling you they still love you and care."

"Quando tudo te sai mal e ninguém mais te repreende, significa que te abandonaram. (...) A questäo é que quando te deparas perante ti mesmo fazendo coisas menos boas e ninguém se dá ao trabalho de dizer-te-lo, é porque estás realmente num local muito mau. Os teus criticos säo aqueles teus dizendo-te que ainda gostam de ti e se interessam"
Randy Pausch, Really Achieving Your Childhood Dreams


MATERIALS:
Transcripcäo original da Last Lecture
http://download.srv.cs.cmu.edu/~pausch/Randy/pauschlastlecturetranscript.pdf

A Last Lecture no youtube
http://www.youtube.com/watch?v=ji5_MqicxSo

Experience is what you get, when you do not get what you want.
Randy Pausch

quinta-feira, 17 de julho de 2008

poesia & auto-poiesis...

para estragar-me esta tarde de Veräo cinzento, deparei-me como em tropeco numas páginas de Borges, a transcricäo de uma série de conferencias que este deu no Teatro Coliseu em Buenos Aires em 1977, posteriormente compiladas em "Siete Noches". As páginas do meu tropeco (näo sei em que época do ano foram proferidas as palavras correspondentes, mas indubitávelmente na mesma estacäo que a minha - como o Inverno portenho corresponde a este Veräo centro-europeu) levam por titulo "A Poesia", e säo umas quantas consideracöes sobre a poesia em geral e sobre dois poemas. O primeiro deles é um soneto de Francisco de Quevedo, uma figura do barroco, nascido algumas semanas após a morte de Camöes, numa Peninsula Ibérica unificada, (o tal que escreveu a obra perdida "História de Don Sebastiao, Rey de Portugal"), a seu tempo secretário e amigo pessoal do Gran Duque de Osuna, Pedro Tellez-Giron.
Canta Quevedo:

Faltar pode à sua pátria o grande Osuna
mas näo a sua defesa as suas azanhas
deram-lhe morte e carcel as Espanhas
de quem ele fez escrava a Fortuna
...
O pranto militar cresceu em diluvio
deu-lhe o melhor lugar Marte em seu solo
a Mosela, o Reno, o Tejo e o Danubio
murmuram com dor o seu desconsolo



Analisa Borges que

"Quevedo deixou-se arrastrar pela ideia de um herói chorado pela geografia das suas campanhas e por rios ilustres. (...) Houvera sido mais verdadeiro dizer a verdade (...). Com a morte [de um ser humano] morre uma cara que näo se repetirá, segundo observou Plinio. Cada ser humano tem uma cara única e com ele morrem milhares de circunstancias, milhares de recordacöes. Recordacöes de infancia e rasgos humanos demasiadamente humanos. Quevedo parece näo sentir nada disto. Havia morrido na carcel o seu amigo, duque de Osuna, e Quevedo escreve este soneto com frialdade."

É senso comum que os unicos e verdadeiros amigos säo os amigos que sentem e vivem a amizade sem exaltacäo e com sobriedade, que a amizade por exaltacäo é uma amizade por algo näo existente, por uma mera projecäo (nas palavras de Aristoteles, no nono livro da Ética a Nicomachos: "näo se amavam um ao outro, mas sim aquilo que estava em eles, e isso näo era duradouro"). É senso comum ainda, que há um caminho e uma árdua tarefa antes de conseguir estabeler um elo de ligacäo entra a projecäo que cada um de si faz e o que cada um é (é dificil também tornar-se amigo um de si mesmo). Näo sei se será ainda senso comum, que esse elo de ligacäo é uma tarefa infinita, e como tal, talvez seja conveniente ir cumprindo-la com uma boa racäo de prazer.

Recordei-me näo sem algum assombro que 1977 é annus horribilis na história argentina, de plena "Guerra Suja", a Junta Militar do General Videla, Desaparecidos, as Maes da Praca de Maio... e que enquanto Borges proferia a sua conferencia sobre Quevedo, quizas na mesma manzana (o quarteiräo portenho), uma outra poesia, esta terrivel e sangrenta, se realizava.

Näo sei quem disse que "nos tempos que passam é um crime falar de poesia", o que é verdade - mas täo verdade é também a sua inversäo "nos tempos que passam é um crime näo viver em poesia".

Borges terminou essa conferencia em 1977 com um verso de Angelus Silesius lido em alemäo , que vai assim:

Die Rose ist ohne warum; sie blühet weil sie blühet.
(A rosa é sem porque; floresce porque floresce.)
Angelus Silesius

acrescento como epilogo:

Der Dorn hat einen Warum...!
O espinho tem um porque...!

P.S.

Complicada esta coisa da Poesia. Auto-poiesis é o processo de autocriacäo e automanutencäo de um sistema. Consta que a vida é autopoiética, e a poesia como parte da vida... Autopoiético também este sorridente entardecer de um céu de veräo cinzento, por trás do qual descortino imensos palcos azuis. Também ele näo tem porquê.

Athene noctua

A coruja (o simbolo do pensamento metafisico na Europa antiga) simboliza o envelhecer do mundo, que resultou das primeiras culturas em redor do Mediterraneo; representa uma forma de observar, para a qual, tanto no bem como no mal sempre tem sido demasiado tarde.(...) No ultimo saber estäo lacradas as ultimas palavras das coisas e estäo depostas as suas necrologias.
Peter Sloterdijk: Kopernikanische Mobilmachung und
ptolemäische Abrüstung (mobilizacäo copernicana e desarmamento ptolemaico)

Dizia Schrödinger que a vida é um estado de desequilibrio (o equilibrio seria e é a morte). O "ultimo saber" de Sloterdijk é um livro escrito no Impossivel, algo que nos seduz por näo existir, näo podendo também näo ser imaginado. É o olhar estupefacto da coruja, aquela que ve na noite (mais correctamente do mocho-galego, da Athene noctua), companheira da insuperável Athena, deusa da sabedoria. É quicas, o que o cosmopolitismo popular expressou posteriorment num proverbio, "levar corujas para Atenas" (fazer algo inutil).

segunda-feira, 14 de julho de 2008

LEONARD COHEN: Everybody knows




Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
Everybody knows that the war is over
Everybody knows the good guys lost
Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
Thats how it goes
Everybody knows

Everybody knows that the boat is leaking
Everybody knows that the captain lied
Everybody got this broken feeling
Like their father or their dog just died

Everybody talking to their pockets
Everybody wants a box of chocolates
And a long stem rose
Everybody knows

Everybody knows that you love me baby
Everybody knows that you really do
Everybody knows that youve been faithful
Ah give or take a night or two
Everybody knows youve been discreet
But there were so many people you just had to meet
Without your clothes
And everybody knows

Everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows

Everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows

And everybody knows that its now or never
Everybody knows that its me or you
And everybody knows that you live forever
Ah when youve done a line or two
Everybody knows the deal is rotten
Old black joes still pickin cotton
For your ribbons and bows
And everybody knows

And everybody knows that the plague is coming
Everybody knows that its moving fast
Everybody knows that the naked man and woman
Are just a shining artifact of the past
Everybody knows the scene is dead
But theres gonna be a meter on your bed
That will disclose
What everybody knows

And everybody knows that youre in trouble
Everybody knows what youve been through
From the bloody cross on top of calvary
To the beach of malibu
Everybody knows its coming apart
Take one last look at this sacred heart
Before it blows
And everybody knows

Everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows

Oh everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows

Everybody knows

quinta-feira, 10 de julho de 2008

NANCY SINATRA: bang, bang...

my baby shot me down



I was five and he was six
We rode on horses made of sticks
He wore black and I wore white
He would always win the fight

B*ng b*ng, he shot me down
B*ng b*ng, I hit the ground
B*ng b*ng, that That awful sound
B*ng b*ng, my baby shot me down

Seasons came and changed the time
When I grew up, I called him mine
He would always laugh and say
Remember when we used to play?

B*ng b*ng, I shot you down
B*ng b*ng, you hit the ground
B*ng b*ng, that awful sound
B*ng b*ng, I used to shoot you down

Music played and people sang…
Just for me the church bells rang…

Now he's gone I don't know why
And till this day some times I cry
He didn't even say goodbye
He didn't take the time to lie

B*ng b*ng, he shot me down
B*ng b*ng, I hit the ground
B*ng b*ng, that awful sound
B*ng b*ng, my baby shot me down.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

o numero de inimigos...

Li algures «molti nemici molto onore» (muitos inimigos, muita honra). É, exactamente como constava nesse tal algures - conferi isso numa página sobre Il Duce, Benito Mussolini - um lema fascista. Sem aspas (no algures, o senhor dizia que era "fascista" - com as aspas, claro). Bem, encontrei aí também uma "costela marxista" e umas reflexöes sobre consciencia de classe, etc., que foi precisamente com essa conjugacäo que engracou a minha curiosidade.
Diz Nietzsche em algum lugar que os inimigos dignificam, mas o lema fascista näo me soa nietzscheniano, muito pelo contrário, soa-me mesmo a fascismo (aqui também sem aspas) na sua pior denotacäo, como a descrita em 1900 do Bertolucci.
Tentando uma interpretacäo rápida: o lema de Mussolini foca a quantidade - há uma proporcionalidade directa entre o numero de inimigos e o o valor da honra, quantos mais inimigos mais digno o acto (de aqui o Bertolucci), é o crime pelo crime; o lema nitzscheniano foca a qualidade: näo é o numero de inimigos que é significante, näo é a quantidade, mas sim a qualidade que repercute sobre a dignificacäo. Há fulanos, e a grande maioria dos candidatos entram nesta categoria, que näo merecem ser meus inimigos. Há que merecer-se os seus inimigos também (e, desconfio que seja mais dificil merecer a inimizade de alguém que a sua amizade).
E há um farolito ali a chamar a minha atencäo para algo mais. No elan revolucionário, enquanto o movimento näo é ainda instituicäo, confunde-se com frequencia o numero de inimigos com a veemencia com que se abanica o estandarte da justica (Robespierre, Trotzky), teem sorte os conservadores.

Carlos Aguilar


o algures (MATERIAIS & LINKS ABANDONADOS):
http://estadocivil.blogspot.com/
http://www.ilduce.net/duce.htm