domingo, 22 de junho de 2008

também o mundo...

Ghulam Haider, onze anos de idade, com o seu futuro marido Faiz Mohammed, 40 anos, no Afganistäo. Ghulam houvera querido ser professora.

Uma foto de Stephanie Sinclair (USA), da sua reportagem The Bride Price: Child Marriage Around The World (O Preco da Noiva: Casamento Infantil Pelo Mundo Afora). Milhöes de mocinhas säo casadas forcosamente em idade infantil. Esta foto foi elegida pela UNICEF como foto do ano de 2007.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

NICHOLSON BAKER: Este sentimento de um tormento interior

Quando se pressupöe o melhor dos seres humanos e se lhes oferece confianca, talvez sejamos lubrididados algumas vezes, mas é também frequentemente nesses momentos que os seres humanos däo o seu melhor(...).
Se aprendermos a recordar-nos com mais precisäo, corremos entäo menos perigo de repetir o passado.
Nicholson Baker: Este sentimento de um tormento interior, Der Spiegel 19/2008, a propósito da publicacäo de "Human Smoke", uma crónica sobre a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto


quinta-feira, 5 de junho de 2008

Perspectivismo

Perspectiva? Qué qué isso? É um determinado lugar na plateia para o palco do mundo, da vida. Perspectiva é "ver através de". Säo uns óculos que permanentemente nos acompanham, que infinitamente estaräo entre nós e o mundo. Este "entre" implica duas consequencias aparentemente contra-postas, que se contradizem: por um outro lado permitem-nos ver o mundo, é a unica forma imaginável de tomar percepcäo dele, por outro lado impedem-nos de ver o mundo como ele realmente é, seriam esses óculos as tais portas transparentes da percepcäo das quais alguém disse: "se as portas da percepcäo fossem limpas, veriamos o mundo como ele realmente é: infinito".
Hoje é um dia muito especial para mim, comeca um julgamento na 2. camara penal do tribunal aqui do sítio, uma coisa triste, que näo vou mencionar porque näo tem cabimento. De todas as formas, isto como justificativo para o meu desabafar de hoje: desabafar é falar para o "vazio", falar por falar, falar porque falar libera (o choro também libera, mas como eu sou daqueles que näo choram, "falo"). Talvez "desabafar" seja mesmo "falar com Deus" (esse tal que näo existe mais, para uma boa parte nós, e aqui pergundo-me se foi realmente assassinado Deus, ou se simplesmente morreu).
Dizia eu que "perspectiva" é uma janela para o mundo. Como numa casa em Alfama virada para o Tejo. Uma janela dá-nos uma perspectiva, uma outra e teremos duas, mais janelas no lado oposto da casa e teremos uma nova perspectica, sem a água do estuário, mas com o Castelo de S. Jorge e as ruas ingremes que a ele conduzem.
Aonde eu quero chegar? Que a "realidade", a "verdade", aquilo que "realmente" acontece é algo de exterior a nós, aquilo a qual jamais teremos pleno acesso, mas sobre o qual perpetuamente teremos "perspectivas", visöes parciais, às vezes contraditórias.
Como estou em desabafo, mais uma intimidade minha: durmo com livros, a minha companhia de noite säo livros, tenho sempre uma meia-duzia deles em redor da minha cama e cada anoitecer durmo com um, às vezes com mais (podem chamar-lhe "sublimacäo", mas é a minha maneira de ser feliz na vida, uma das muitas maneiras que eu tenho de inventar a minha felicidade - sim senhora, escutou bem, a felicidade é inventada, os infelizes ainda näo descobriram como, mas se realmente entrarem nos seus laboratórios interiores ela aí estará à sua espera, e prometo-vos, vale a pena procurá-la. E, gosto de deixar sempre umas pistas para uma das minhas felicidades, as minhas ideias. Gosto por tanto de enunciar os heraldos (existe isto em portugues?) das minhas perspectivas. Um dos meus amores nocturnos de momento é um re-romance meu com Nietzsche, tem o nome de Sobre a genealogia da Moral, e li pela primeira vez há uns 20 anos. É para mim uma nova descoberta, näo me recordo de uma unica palavra - os trechos complexos (näo complicados, mas complexos) teem isso de se esquecerem rápidamente. E ontem, cheguei a um parágrago que serviria quase como lema para este site, que é o porque deste site, o porque do meu "vicio" em vir aqui, perder horas imensas, com coisas com as quais por norma passo ao lado. E esse parágrafo vem de Nietzsche e vai assim:
"Só existe um ver perpectivista, só um ´reconhecer´ perspectivista; e quanto mais afectos deixemos pronunciarem-se sobre uma coisa, quantos mais olhos, olhos diferentes nós nos sabemos inserir para a mesma coisa, tanto mais completo será o nosso ´conceito´ dessa coisa, será a nossa ´objectividade´."

Sou propenso, defensor de que é um sinal de riqueza e uma causa de regozijo essa impossibilidade de acedermos à ´verdade´. Para que viver, se a tivessemos à nossa disposicäo?? Que fazer depois? Há uma teoria que defende que Deus näo morreu de morte natural, que se suicidou, de tédio. E, termino, recordando uma de Proust näo sei onde, que dizia que "as melhores viagens näo säo aquelas que nos levam a outras paisagens, mas aquelas que nos permitem outras perspectivas sobre uma mesma". Traduzi isto para o meu portugues e diz-me o seguinte: näo säo as paisagens o interessesante, mas o paisagista, aquele que cria essas paisagens e que vive essa viagens e que somos Nós!
Há umas perspectivas menos bonitas e tristes e que prefiro näo ver, fecho os olhos e näo respondo, é mais saudavel para mim e para a paisagem e - como sou optimista por decisäo - acredito que as paisagens podem vem de encontro ao pintor, quando este näo tem acesso a elas (so, common baby!).E, para terminar, gracas a Deus que o meu amigo citadino näo está por aqui, para me enfiar uma outra seca das minhas "baboseiras", näo que ele seja menos sensivel ou mais brutinho que eu. Acontece simplesmente que é alfacinha e, como todos os alfacinhas, mantém-se a prumo, näo desabafo. Eu, como sou da provincia, näo tenho problemas em nadar no rio, nú.

terça-feira, 3 de junho de 2008

GEORGE SPENCER-BROWN: muralhas

Há um jogo, que jogam as criancas, quando vem a maré. Constroem em sua volta uma muralha presumidamente impenetravel de areia, para suster a àgua do lado de fora o mais tempo possivel. Naturalmente que a agua penetra lentamente por baixo e a um dado momento rompe a parede e inunda-a. Os adultos jogam um jogo parecido. Envolvem-se com uma muralha presumidamente impenetravel de argumentos, para deixar a realidade do lado de fora. Mas, a realidade penetra lentamente por baixo, e a um dado momento rompe a muralha e inunda-nos a todos.
George Spencer-Brown: Only two can play this game

Materials & Left Links:
http://www.fen.ch/texte/gast_swr_spencer.htm
http://www.faz.net/s/Rub1DA1FB848C1E44858CB87A0FE6AD1B68/Doc~EA3296B889ADF46FE99B704480912238E~ATpl~Ecommon~Scontent.html

sexta-feira, 30 de maio de 2008

cores

o branco e o negro
o negro e o vermelho
cores
stendhal
gramatologia, construcäo, des-construcäo (criar um mundo é excluir os outros possiveis)
Pensamos e inventamos o mundo em dicotomias, em opostos, e entre esses colocamos as nossas tonalidades de cinzento (ou de outras cores segundo o estado de espirito do respectivo momento).
Será imaginavel de uma outra forma?
uma outra perspectiva?
Existirá o Mundo se abolirmos as dicotomias?
E onde posicionar entäo as tonalidades dos cinzentos, depois de abolidos os extremos??
there are more lives than walking desperate the streets hurry (há mais vidas que que caminhar desesperadamente pelas ruas apressa-te) diz Dos Passos, so guys and dolls, saiam esses cavaletes, encharquem-se essas aquarelas, esborrachem-se esses guaches e pintem o Universo.
Nota Bene: hoje mudei a aparencia deste blog
P.S.
As primeiras quatro linhas deste trecho e alinhagem de todo o texto säo uma candida concessäo a todos os meus amigos que imploram que escreva poesia. Se entendi certo, näo tanto pela confianca que depositam na minha rima e métrica, mas pela ineficiencia e des-clareza da prosa que apresento.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Quatro 33

"Have i said anything that would lead you to think that i thought you are stupid?"
John Cage

Disse alguma coisa que o levou a pensar que eu pensava que voce é estupido?

4´33´´

Quatro 33 é o nome de uma obra de John Cage executada pela primeira vez num piano em 1952 e transmitida por rádio em Janeiro de 2004 pela Orquestra Sinfonica da BBC no Barbecan Hall em Londres. É uma peca em tres movimentos que, contrariamente ao que o titulo insinua, näo tem tempo (nem numero de instrumentos) pré-estabelecido embora hoje se respeite geralmente essa duracäo.
Cada movimento da partitura consiste numa unica ordem - Tacet - que no latim significa ele/ela silencia, e indica ao respectivo instrumento pausar até ao fim do trecho actual.
Por mais que todos os executantes da peca näo utilizem os seus, é uma peca com sons. Essa era a verdadeira intencäo de John Cage: focar a atencäo para os sons que nos rodeiam e que usualmente näo percebemos, nas palavras do próprio: "The material of music is sound and silence; integrating this is composing. I have nothing to say and I am saying it" (O material da musica é som e silencio; integrar estes é compor. Näo tenho nada para dizer e estou dizendo-lo).
Mike Batt, um musico pop actual, tentou superar 4´33´´ com o seu A One Minute Silence (Um Minuto de Silencio), alegando que esta era "uma obra silenciosa muito melhor" porque fora "capaz de narrar em um minuto aquilo para que Cage necessitara 4 minutos e 33 segundos". Posteriormente, em 2002, Batt pagou uma elevada indemnizacäo aos herdeiros de John Cage por alegado plagiato subscrevendo uma obra própria sob a sigla Batt/Cage.
Poderia considerar-se John Cage como o máximo minimalista. A musica minimalista tenta atingir o maior efeito repetindo e variando um padräo minimo de sons, como se a melodia progredira aos "trambolhöes" ou em "solucos", audivel nas composicöes de Erik Satie.

A versäo para piano



A versäo orquestrada da BBC





Materials & Left Links
John Cage: In The Name Of The Holocaust, 1942
http://news.bbc.co.uk/1/hi/entertainment/music/3401901.stm
0'00" que näo é mais executado numa sequencia temporal e se realiza simplesmente no programa; a sua execucäo näo é mais perceptivel.
H. Blumenberg: Die Vollzähligkeit der Sterne
4´33´´ http://de.wikipedia.org/wiki/4%2733%22
Eric Satie http://de.wikipedia.org/wiki/Erik_Satie
Minimalmusik http://de.wikipedia.org/wiki/Minimal_Music

terça-feira, 29 de abril de 2008

sobre o cuidado nas bocas sobre a mulher do amante da vizinha...

Veio-me à cabeca, melhor dizendo à recordacäo, esta simples operacäo: cada ser humano que existe neste momento sobre o planeta conhece umas 300 pessoas extremamente bem, com nome, fisionomia e dados menos visiveis. Cada um destes conhece por seu lado 300 que conhecem 300, que conhecem 300.
Estas quatro estacöes (relais) interlacam intimamente toda a humanidade (300 x 300 x 300 x300 = 6.146.560.000) em vida.
Explicaria isto, porque o outro dia, quando houve um acidente aqui na minha rua, provocado pelo marido da minha vizinha a observar no cimo da calcada o amante da sua mulher que esperava que a filha mais nova abandonasse a casa para o colégio privado que frenquenta... explicaria porquê os quatro juntos conheciam toda a humanidade? Explicaria isto, porquê o problema de chifres ("hastes",como diz a representante da minha analista) e coisas assim é um problema universal que envolve os tais 6.146.560.000 individuos?


P.S.
Aqui a historia completa como ela posteriormente foi deturpada num site que näo merece ser aqui mencionado. No fundo a deturpacäo näo foi num site mas em dois sites, essa coisa da deturpacäo é um erro de transmissäo e näo um erro de expediente ou recepcäo (por isso necessitamos a redundancia, nas transmissöes telefonicas, na linguagem, no ultimo bit näo utilizado de um byte). Que significará "déchiffrer" no frances? Terá que ver com as hastes ou com os chiffres?

Bem, no outro sitio, naquele do outro gerente, melhor, do gerente dos outros, näo é conveniente falar de politica, porque excita os animos em demasia. Aqui näo posso falar em filosofia, porque o nosso gerente aqui é preguicoso como uma lata e já vendeu todos os dicionários que havia lá por casa...
Poderiamos falar de crochet (fazer malha), mas o gerente dos meus pensava que também as malhas nascem em lata e näo säo feitas. De futebol? Assustam-se as mulheres. Do bom tempo? Por exemplo que está um sol fantástico lá fora, a minha vizinha que está a bronzear-se no jardim em pelo, e que aproveitando um buraquinho da vedacäo, tem aquele amante bem musculado que sempre aparece às segundas, a ver se o filho menor dela já saiu para a escola particular?
Ou, poderei acrescentar que o marido da minha vizinha (aquela loura escandalosa com quem tinha rendez-vous marcado ontem e näo apareci) já anda desconfiado da coisa (razäo mais porque falhei no rendez-vous) e está no outro lado da rua, num carro da Avis, com um monoculo a grande distancia (metade de um binoculo) a observar o intruso conjugal? Ou, devo acrescentar ainda o desenrolar da coisa? Que o condutor de um carro passou naquela zona semi-peatonal com limitacäo de velocidade a trinta por hora e reconheceu o marido da minha super-vizinha? Que viu o carro da Avis, o mesmo que eu havia utilizado a semana passada, quando fui levar o meu puto ao aeroporto, que se distraiu o condutor (este filho de uma figa que tinha tido um caso com a minha mulher quando eu ainda pensava que ela era minha), vendo o vizinho dentro da viatura, o mesmo vizinho que lhe havia entregue - trabalha nos servicos camarários o tal condutor - a sua carta de conducäo há tres semanas (meteu-se nos copos para abafar a dor, sei lá eu, em que sim é verdade que os cornos säo como os dentes, só nascem quando doem, mas quando passou a dor já o meu vizinho näo tinha carta)? Que foi tal a sua estupefaccäo (surpresa) que chocou num poste de sinalizacäo de estacionamento interdito que caiu em cima da cabeca do amante da minha doce vizinha do lado exterior da vedacäo, abrindo-lhe a cabeca de meio em meio, matando o fulano naquele mesmo momento? Que eu chamei o Pronto-Socorro que no fim da rua chocou com o carro da Avis em fuga subita com o meu vizinho sem carta? Que a minha vizinha surgiu em negligé na rua e ao ver o amante morto, o ex-meu-amante (quero dizer, aquele da minha ex-mulher) com um telemovel na mäo, a falar com sei lá eu o que, desmaiou de imediato, batendo com a cabeca na esquina do passeio, ainda hoje em estado de coma na Clinica de Montanhismo aqui da regiäo? Que a brigada de transito chegou uns minutos depois com a minha näo-noiva, a Carlinha do chicote vermelho, algemando aquela maralha toda e levando tudo para o comissariato (delegacia)? Que os garotos aqui da rua, os filhos da super-loura, do funcionario publico ex-amante da minha tal, vivem todos agora no rés do chäo da minha casa? Que é uma trabalheira enorme, que já nem tempo me sobra para ver a série televisada dos domingos, que teve que vir o irmäo da minha mulher, para me dar uma ajuda nos afazeres da casa?
Ena, já tá na hora do almoco! Resumindo, näo sei se será boa ideia falar de tempo.
Gerente, vou ter que sair para almocar com um outro amigo, poderia deixar-te aqui as chaves do taxi para entragares ao meu alter ego (latim para designar aquele fulano sem graca que mora na porta ao lado, aquela com um capacete wiking no exterior).